Fogo e Noite

Friday, September 29, 2006

Não gosto

,"Não gosto, odeio e não quero!" Como menina birrenta, bati o pé, de sobreolho franzido até me doer a face de tanto a carregar de nervos. Sisuda como um pai. Só faltava a barbicha e um bigode para ficar ainda mais fechada. "Não quero, não quero, não quero!" E não fui. Não quis ir e rabugei até me deixarem em paz. Qual era a deles de me obrigarem a entrar naquela carroagem a cheirar a castelos, de princesas e ladies à janela, com cara de quem tem mil principes a galopar atrás dos seus olhares de vidro frio, ornadas da cabeça aos pés com sedas e oiros. "Eu cá fico com as minhas borboletas". E não entrei. "E vais ficar aqui a ver se algum tesouro te cai do céu e aparece algum principe num cavalo branco e diga que te quer para casar?" Não. "Não quero principes". Sacudi os ombros, determinada. Bati o pé, já zangada com a insistência. "Não gosto daquelas mulheres. Nem quero aqueles homens ao pé de mim. Deixem-me só com as minhas borboletas, eu cá me arranjo." E todas entraram para a carroagem, a rir de mim e a encolher os ombros, com a pupila a reluzir tipo berlinde de expectativa. Só tive tempo de lhes recomendar: "Não me escrevam para contar as vossas infelicidades, pois eu não estarei mais aqui" Depois rematei, sem verdade: "Mas boa sorte". E elas pensaram, "invejosa". E eu pensei "pobres almas". E elas pensaram, "que infeliz" e eu pensei "que infelizes". E rodei os calcanhares para continuar a fazer o meu trabalho. Continuei a escrever, e a cuidar das borboletas. Escrevi: "As minhas amigas vão-se meter em alhadas. Aquela carroagem vai cheia de vícios e de maus sentimentos." E sem parar, delimitou: "aquelas mulheres não me queriam lá dentro. O olhar que me mandaram era frio, altivo e de asco." Mas eu tive mais asco ainda daquele comboio. E sei que iam todas a gozar comigo por não ter entrado. Riam e bebiam e cantavam e trocavam olhares para descobrir alguém que as quisesse. Ou só para se sentirem desejadas. Ou para concorrer. "não quero ir". Sinto-me muito bem à beira das minhas borboletas. Estou tão bem aqui.. E depois..quando quiser sair, antes prefiro apanhar a próxima carroagem. Vai vazia, porque é só para ricos. Não para pobres como a outra. Ricos. Ricos de alma. "Mas eu também não sei se sou rica de alma. Se ninguém lá vai..Porque hei-de ir eu?" Espero pela outra. Depois de muito tempo chegou uma que dizia "Felizes". E só levava um menino. E só levava uns olhos de fidelidade. Na mão tinha um nenúfar de fumo quente. Aproximei-me e disse: "Não gosto de castelos no ar. Nem gosto de quem me olha das janelas de um castelo" Ele ia falar, mas antes eu disse: "Nem gosto de principes com cheiro a castelo". E ele deu-me o nenúfar de fumo para me aconchegar, seguiu as minhas borboletas com o olhar e disse: "Vamos sair na próxima. Chama-se 'Felicidade a dois". E saímos. Cheio de simplicidade, com olhos quentes, sussurrou: "olha lá para baixo". A nossa carroagem tinha atravessado o arco-íris. Olhei. Uma carroagem que dizia: "Castelos" cheia de mulheres estava tombada fora dos carris, e um monte de príncipes ajoelhados riam delas aos gritos umas com as outras, de saias amarrotadas. Chorei e dei-lhe a mão. Mandámos as borboletas e o nenúfar lá para baixo. E seguimos, de mãos dadas. "Odeio mesmo castelos..."

Wednesday, September 27, 2006

Noite de Luar

Viemos de..."lados errados". Do lado onde o ceu era escuro. Fizemos caminhos de giz no chão, que o tempo esvaneceu. Ficou a reminiscência do que já foi. Fomos bonecos de pano e brincámos aos namorados, até cairmos no relento. E aí, então, cruzámos os primeiros passos numa só linha. A noite deixou-nos só no arrepio de uma brisa indiscreta. Não sei, não sabes o quê, porquê, de onde, aquela noite caiu. Mas "aconteceu". Em segredo, luar genuíno, nenhuma luz mais. Braço de mar em baixo, burburinho de água que corre levemente. E o senhor do chapéu feito de sombras. Sem querer, mãos entrelaçadas. Na perfeição como um "puzzle", juntámos nesse mesmo raio de lua as pecinhas que faltavam em cada um de nós. Rio da memória que guardei, momento mais solene. Vimos estrelas cadentes até lhes perdermos a conta, porque até a leveza do céu puro interceptava com o que vibrava no ar entre nós. A mesma sensação, o mesmo olhar, a mesma cumplicidade, a mesma dúvida "o que é?", as mesmas palavras, o mesmo beijo, a mesma alma. Aí nos tornamos um pela primeira vez, porque sem dizer nada e conversar tanto, formamos um nó cego no primeiro beijar de lábios..e vimos o céu descolorar e começar a nascer um horizonte laranja. Primeiro amanhecer de um amor. E o abraço que trocámos ficou para sempre no meu corpo. E no mais longe do que deve ser o firmamento, não um rasgo de luar mas uma bola enorme e luminosa, grande como a nossa vida a dois, grande e arregalada como um olho sempre atento de alguém que abençoava aquele momento em perfeita cumplicidade connosco...estava ela. Lua, cupido dos que amam a natureza e tudo o que ela dá. Amo a natureza e amo-te a ti porque és parte dela, és dádiva, perfeição que só um Deus poderia criar. Amei-te desde o primeiro estimular de sentidos, desde a primeira tremura do meu peito, desde o primeiro fingir que não é nada e é amor. Amei-te desde que o teu sorriso colou no meu. E porque nunca tinhamos acendido fogueira no nosso coração, apenas ateámos uma labareda ou outra, porque tu em mim sim e eu em ti sim e porque nos completamos como dois cisnes embriagados de paixão. E porque nunca fomos de mais ninguém. Sempre que te magoarem eu vou sentir ainda mais porque eu sou a hepiderme da tua alma. Anjo da guarda. Sempre foste, hoje mais do que sempre. "Somos um bocado doidos, não somos?" "Parece que sim".
E dormimos com um segredo tão grande que quase explodia no peito e parecia ecoar por toda a floresta que envolvia. Mas ninguém acordou e só eu ouvi a tua pulsação na minha todo o tempo que dormi pela primeira vez com o meu anjinho da guarda à cabeceira.

Tuesday, September 26, 2006

Light


Vem-se alastrando ao longo dos tempos... nasce na Coca Cola... O Compal é a primeira vítima do contágio... Propaga-se até às batatas fritas e contamina também os iogurtes.

Estamos na era do Light, à qual ninguém fica imune.

O Light era um escuta à maneira. Vestia calcinha larga, tilha Nike Shock, cabelinho à Zé Milho, com um estilo D’ZRT inconfundível. Telemóvel 3G e PSP também faziam parte do seu kit pipi. Como todo o bom escuteiro Light, este não podia desrespeitar os 10 Light Mandamentos:

0) O Light chega sempre atrasado à actividade
1) O Light nunca acampa, procura sempre uma casa
2) O Light nunca caminha, tenta sempre uma boa boleia
3) O Light não emite opinião, abana sempre a cabeça
4) O Light é escuteiro sempre que não há mais nada para fazer
5) O Light é escuteiro só em seu próprio benefício
6) O Light não perde um episódio dos “Morangos”
7) O Light é altruísta, deixa sempre o trabalho para os outros
8) O Light pára em todos os tascos para beber o seu digestivo
9) O Light procura bater o recorde de vícios
10) O Light lê sempre uma carta até ao fim

(esta foi em especial para a mariana lol não vale copiar ideias!!!:P)

«Embalaram-te nos costumes, mobilaram-te com as suas pregações. Encharcaram-te de convenções até á medula; Expuseram-te numa redoma, para lhes valorizar o ensino, Mas não ouves a selva que te chama?
Vamos sondar os lugares do silêncio, procuremos a sorte que vier, Viajemos para uma terra solitária que conheço; O vento nocturno está a segredar-nos, fulgura uma estrela que nos guia, E a selva chama, chama por nós... Vamos.
Já sofreste, tiveste fome e triunfaste, andaste de rojo e contudo tentaste aferrar a glória. Tornando-te grande na grandeza do conjunto?
"Fizeste coisas", só por fazê-las, deixando que os palavrosos contassem a história a seu modo.
Vendo a alma nua através do fino verniz?
Já viste Deus em Seus esplendores, ouviste o texto que a Natureza repete?
(Nunca o ouvirás no banco familiar da Igreja)
As coisas simples, as coisas verdadeiras, os homens calados que fazem as coisas?
- Ouve então a selva que te chama.»

In "A caminho do triunfo", B.P.

Para aqueles caminheiros que querem triunfar. "O fim da educação Caminheira é auxiliar os jovens a tornar-se Cidadãos Felizes, Saudáveis, Úteis."

Monday, September 25, 2006

Nasceu

Nasceu hoje e nem sei bem como. Acho que depois de ter online com o Helder Bastos, é quase impossível não acabar por criar um blog! lol Ainda não sei bem em que é que se vai tornar este blog ou se vai durar muito tempo, mas vai talvez servir para aquelas coisas que queremos partilhar com toda a gente. Ou com os mais próximos.

Hoje a primeira coisa que quero deixar vos é simples como o fogo e misteriosamente bela como a noite. Amor.

Aconteceu...
e por me teres feito cego
recordo o sabor da tua pele
e o calor de uma tela
que pintámos sem pensar.


Ninguém perdeu,
e enquanto o ar foi cego
despidos de passados
talvez de lados errados
conseguiste me encontrar.

Foi dança
foram corpos de aço
entre trastes de guitarras
que esqueceram amarras
e se amaram sem mostrar.

Foi fogo
que nos encontrou sozinhos
queimou a noite em volta
presos entre chama à solta
presos feitos para soltar...

Estava escrito
E o mundo só quis virar
a página que um dia se fez pesada
E o suor
que escorria no ar
no calor dos teus lábios
inocentes mas sábios...
no segredo do luar.

Não vai acabar
Vamos ser sempre paixão
Vamos ter sempre o olhar
Onde não há ninguém
Dei-te mais...! Valeu a pena voar...

Estava escrito
E a noite veio acordar
a guerra de sentidos travada num céu
Nem por um segundo largo a mão
da perfeição do teu desenho
e do teu gesto no meu...
foi como um sopro estranho...
...e aconteceu...


És noite em mim,
És fogo em mim.
És noite em mim.


Fogo e Noite, Toranja